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Clóvis Medeiros: “Os primeiros caminhos”

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clovis

Os primeiros caminhos

Todos esses que aí estão

Atravancando meu caminho,

Eles passarão…

Eu passarinho!

Eis um dos mais populares poemas de Mário Quintana, nosso Poeta Maior, nascido no Alegrete. Me servi do poema como motivo para introduzir o tema de hoje. Os caminhos, as velhas rotas que oportunizavam o contato das pessoas entre pontos distantes. A apresentação do tema vai parecer utopia, fantasia do autor. Assim pensarão, com razão, jovens que me lerem, pois a realidade dos tempos atuais serve apenas para suscitar um exercício de imaginação dos tempos passados. Coisa que os jovens têm e muito fértil. Vou escrever história, fatos reais e não, estória, ficção ou fatos imaginários. A intenção é de tentar descrever, expor um pouco, da forma de deslocamento das pessoas, quando sequer haviam estradas.

Vou tomar como referência a região onde nasci e vivenciei parte do que vos lhe contar. Nasci na década de 1940, numa localidade do interior de São Francisco de Assis. Nossa morada ficava a 35 quilômetros das cidades mais próximas, Jaguari e São Francisco. . Costumávamos nos deslocar a cavalo, no trecho que, naquela época, era definido em léguas. Cada légua mede seis quilômetros. Portanto 36 quilômetros, mais ou menos. Para preservar os animais, a viagem era dividida em duas partes. Dezoito km após a partida, á beira de um rio, fazíamos a primeira parada para descansar e alimentar tanto os cavalos como os viajantes. Os animais eram banhados no rio e pastavam durante umas duas horas, até mais, dependendo da duração da sesta do meu pai. A próxima etapa era a sempre perigosa travessia do rio. Violento, corredeiras, fundo pedregoso, tudo isso oferecia dificuldade para os cavalos.

Certa vez, lembro que havia enchente e tivemos que pedir pousada na casa de uma benzedeira, conhecida na região. Ficamos ali até  que o rio voltasse ao leito normal. Lembro da comida suculenta que ela nos ofereceu. Ensopado de ovelha com pirão. Como sobremesa nos ofereceu canjica com leite, canela  e muita amabilidade. Era o costume da época: receber visitas de forma afável, delicada, com cortesia. Um ou dois dias depois o rio baixou e conseguimos atravessar.

Naquela época não havia um caminho traçado, uma rota estabelecida. Tomava-se por referência morros, matos, rios. Os viajantes andavam pelos campos, por trilhas, picadas precárias, talvez feita pelos índios ou tropeiros. A imagem dos campos onde passávamos, guardo até hoje. Horizontes largos, aves e animais silvestres que hoje não vimos, porque foram extintos ou quase. Emas, Seriemas, Gaviões, Caranchos, Anús pretos, Sorros, Tamanduás…..Por várias sangas a gente cruzava. E isso me fazia lembrar da que havia lá em casa, onde morava e aos domingos, com caniços, irmãos e primos nos divertíamos, tomando banho, pescando lambaris e  fritando peixe à beira da sanga.

Lembro que a gente cruzava por “mascates”, viajantes que levavam de tudo, no lombo de mulas, e andavam de casa em casa. Vendiam manufaturados, remédios, roupas, cobertas, alimentos. Haviam também os carreteiros, que andavam em comboios de duas ou mais carretas puxadas por várias juntas de bois. Esses levavam do interior, produtos como couros, banha, abobora, milho, feijão e traziam das cidades, açúcar, tecidos, panelas, querosene para os lampiões, ferramentas para uso na lavoura. Meu pai seguia me explicando o que sabia de tudo o que se passava ao nosso redor. Me falou que os carreteiros,( seu irmão, meu tio Dejalma, foi um desses), chegavam a ficar mais de três meses longe de casa, dormindo ao relento, passando muita dificuldade. Era a vida, dizia meu finado pai.

A cada viagem, uma por ano, no máximo, se notava que surgia alguma morada que não existia antes. Aos poucos o povoamento dos campos imensos se expandia. Até que, surgiu o primeiro traçado de uma estrada, de terra batida, plena de curvas.  Nada mais era do que uma linha de demarcação entre localidades. Precária, quando chovia o barro tomava conta e até as carretas atolavam. Não havia pontes, se o rio subia, ninguém passava.

Experiências ricas, como os ensinamentos do meu mestre, meu pai, que definia normas de comportamentos, até nesses deslocamentos. ____Homem de respeito nunca deixa uma porteira aberta. Se tiver que derrubar um moirão para passar com os cavalos, faça isso mas deixe exatamente como estava antes. Não judie dos animais, respeite os limites deles. Eles sentem como nós!

Clóvis Medeiros

 

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